O advogado e fundador do Stelo Advogados, Gilmar Stelo, considera que, em um escritório de advocacia, a liderança precisa responder a uma escolha diária: concentrar decisões para manter o controle ou distribuir responsabilidades para ampliar a capacidade da equipe. O modelo adotado afeta prazos, qualidade técnica, relacionamento com clientes e desenvolvimento profissional. Liderar, nesse contexto, não é apenas ocupar a posição mais alta, mas organizar o trabalho para que as decisões tenham critério.
A centralização pode parecer eficiente quando a equipe é pequena ou enfrenta uma urgência. Com o crescimento do escritório, porém, ela tende a criar filas, dependência de uma pessoa e pouca autonomia. Compare os dois modelos e veja em que situações a coordenação produz mais consistência sem afastar a responsabilidade de quem dirige a banca.
O que a liderança centralizadora resolve?
A concentração de decisões oferece uniformidade imediata. O líder revisa peças sensíveis, aprova propostas, define prioridades e acompanha diretamente os casos mais delicados. Em momentos de crise, esse arranjo pode reduzir a dispersão e impedir que cada profissional adote uma resposta incompatível com a orientação do escritório.
Gilmar Stelo aponta, contudo, que o ganho de velocidade só aparece quando o volume de decisões ainda cabe na agenda de quem centraliza. Se toda dúvida precisa subir ao mesmo ponto, tarefas simples esperam junto com questões estratégicas. O resultado é um gargalo que parece controle, mas transfere para o líder atividades que poderiam seguir critérios previamente definidos.
Quando a coordenação supera o comando direto?
A liderança coordenadora distribui responsabilidades sem abandonar a supervisão. O escritório define parâmetros, estabelece quem decide em cada tipo de situação e cria momentos de revisão. Assim, o advogado responsável por uma área consegue agir dentro de limites conhecidos, enquanto a direção acompanha resultados e intervém quando o risco ultrapassa esses limites.
Esse modelo depende de informação compartilhada. Reuniões objetivas, registros de decisões, modelos revisados e canais claros para dúvidas reduzem a necessidade de interromper o trabalho a todo momento. Para Gilmar Stelo, delegar não significa simplesmente repassar tarefas, mas entregar contexto, autoridade compatível e responsabilidade pelo resultado.

Como preservar a qualidade técnica?
A qualidade não depende de uma única assinatura em todos os documentos. Ela pode ser protegida por revisão por amostragem, dupla conferência em matérias sensíveis, discussão de teses e padrões mínimos de redação. O método deve variar conforme a complexidade do caso, o risco envolvido e a experiência de quem executa a tarefa.
A liderança também precisa transformar erros em informação de gestão. Uma falha recorrente em prazo, cadastro ou comunicação pode indicar problema de processo, não apenas desatenção individual. Quando o escritório registra a causa e corrige o fluxo, a equipe aprende com o episódio e reduz a chance de repetir a mesma ocorrência.
Qual modelo desenvolve melhor os profissionais?
A centralização ensina por observação, mas pode manter os demais profissionais em posição de execução. A coordenação cria oportunidades para que advogados assumam projetos, apresentem alternativas e recebam retorno sobre decisões reais. O aprendizado deixa de ser apenas teórico e passa a envolver análise, comunicação e prestação de contas.
Gilmar Stelo salienta que esse desenvolvimento exige orientação proporcional. Profissionais em formação precisam de acompanhamento mais próximo; pessoas experientes podem receber maior autonomia, desde que conheçam os limites da atuação. A direção do escritório não perde relevância ao distribuir decisões. Ela passa a formar sucessores e a evitar que o conhecimento fique preso a uma única trajetória.
Como escolher entre centralizar e coordenar?
A escolha não precisa ser absoluta. Uma decisão com alto impacto financeiro, risco reputacional ou consequência processual relevante pode exigir aprovação da direção. Uma providência rotineira, por outro lado, pode seguir um procedimento delegado. O critério deve estar ligado ao risco e à complexidade, não ao hábito de consultar sempre a mesma pessoa.
Na visão de Gilmar Stelo, escritórios sustentáveis combinam comando nas decisões que exigem visão institucional com coordenação nas atividades que dependem da capacidade da equipe. Essa combinação permite preservar unidade sem sufocar a iniciativa. A melhor liderança jurídica, portanto, não é a que responde a tudo, mas a que constrói condições para que o trabalho continue bem executado mesmo quando o líder não está na sala.