A casa nova que esquenta demais no fim da tarde ou acumula mofo nos cantos costuma ter um problema de projeto, e não de acabamento. Para Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, a arquitetura bioclimática ajuda a evitar esse tipo de situação ao usar o clima a favor da construção. O conceito reúne estratégias que aproveitam sol, vento, sombra e materiais para garantir conforto térmico com menor dependência de ar-condicionado e aquecedores.
Como a arquitetura bioclimática funciona
A ideia central é simples: antes de pensar em equipamentos, o projeto analisa o clima do local e desenha a casa para responder a ele. Temperatura média, amplitude térmica entre dia e noite, umidade, direção dos ventos predominantes e trajetória do sol ao longo do ano orientam decisões sobre posição dos cômodos, tamanho das janelas e escolha de materiais.
No Brasil, a norma ABNT NBR 15220 divide o território em oito zonas bioclimáticas, cada uma com recomendações próprias de sombreamento, ventilação e tipo de parede e cobertura. Uma casa no litoral do Nordeste e outra na serra gaúcha, por isso, não deveriam seguir o mesmo projeto.
Orientação solar decide onde fica cada cômodo
No hemisfério Sul, a fachada voltada para o norte recebe sol durante boa parte do dia, com incidência mais intensa no inverno, quando o sol fica mais baixo. A fachada oeste, por sua vez, concentra o calor da tarde, justamente quando paredes e telhado já acumularam temperatura. A face sul recebe pouca insolação direta e tende a ser mais fria e úmida.
Segundo Daugliesi Giacomasi Souza, conhecer esse comportamento muda a distribuição da planta. Quartos voltados para o oeste costumam ficar abafados à noite, enquanto áreas de serviço, garagem e depósitos funcionam bem como barreira nessa face. Salas de convivência ganham com a luz da face norte, desde que haja proteção adequada nos meses mais quentes.

Ventilação cruzada e sombreamento
A ventilação cruzada acontece quando há aberturas em paredes opostas ou adjacentes, permitindo que o ar entre por um lado e saia pelo outro. Portas internas alinhadas, janelas em alturas diferentes e aberturas próximas ao teto ampliam o efeito, já que o ar quente sobe e encontra saída. Em climas quentes e úmidos, a estratégia é uma das mais eficientes para reduzir a sensação de abafamento.
O sombreamento complementa a ventilação. Beirais largos, varandas, brises, pergolados com vegetação e árvores bem posicionadas bloqueiam a radiação antes que ela atinja paredes e vidros. Um vidro sem proteção na face oeste, por exemplo, transforma o ambiente em estufa ao longo da tarde.
Materiais e cores fazem diferença
A escolha dos materiais depende do clima. Em regiões com grande diferença de temperatura entre dia e noite, como partes do Cerrado e do semiárido, paredes espessas e de maior inércia térmica absorvem calor durante o dia e o liberam lentamente à noite. Já no litoral quente e úmido, construções mais leves e bem ventiladas costumam oferecer mais conforto.
Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, a cor da cobertura e das fachadas também pesa no resultado. Superfícies claras refletem parte da radiação solar, enquanto telhados escuros acumulam calor e o transmitem para o interior. Isolamento térmico sob as telhas reduz essa transferência e melhora o desempenho em qualquer região.
Reforma também pode adotar a estratégia
Os princípios bioclimáticos não valem apenas para casas novas. Em reformas, é possível ampliar aberturas para criar ventilação cruzada, instalar brises ou toldos na face mais exposta, trocar a telha, aplicar manta térmica e plantar árvores de copa ampla no lado oeste do terreno.
Mudanças desse tipo tendem a ter custo menor do que a climatização de todos os cômodos e reduzem a conta de energia ao longo dos anos. Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, avaliar o clima antes de definir acabamentos e equipamentos é o que permite que a casa trabalhe a favor de quem mora nela.